Desde maio de 2022 que as albufeiras do Algarve estão abaixo dos 50% de armazenamento. Em fevereiro de 2024, o Governo reconheceu formalmente a situação de alerta por seca na região e aprovou um quadro de medidas de resposta. Nesse quadro, o setor do turismo — onde se incluem o golfe e o alojamento turístico — foi explicitamente abrangido, com uma redução pedida de 13% face ao ano anterior. Em março de 2025 as restrições foram aliviadas para 5%, iguais para todos os setores, tendo 2019 como ano de referência.

A leitura para um hoteleiro é simples: a água deixou de ser apenas uma rubrica de custo e passou a ser uma quantidade atribuída, monitorizada mensalmente pela Agência Portuguesa do Ambiente. E dentro de um hotel, poucas operações consomem tanta água por metro quadrado como a lavandaria.

Este artigo é sobre onde essa água se gasta e o que a faz descer. Os números são de referências do sector, não medições nossas, e as fontes estão no fim.

01
O ponto de partida

A métrica que interessa

Medir o consumo da lavandaria em metros cúbicos por mês não serve para nada. O volume sobe em agosto e desce em fevereiro por razões que nada têm a ver com eficiência. A única métrica que permite comparar é litros de água por quilo de roupa processada — L/kg.

É um número que quase nenhuma operação hoteleira conhece, e que se calcula com duas leituras: o contador de água dedicado à lavandaria e o peso da roupa processada. Se não tiver contador dedicado, esse é o primeiro investimento a fazer — sem ele, tudo o resto é conversa.

A segunda coisa a saber é onde a água se reparte. Numa lavandaria não-residencial, o processo de lavagem representa 90 a 92% do consumo total. A produção de vapor fica pelos 5 a 8% e os usos auxiliares pelos 2 a 3%. Isto tem uma consequência prática: medidas fora do processo de lavagem mexem, no máximo, em 10% do consumo. É dentro da máquina que se ganha ou se perde.

02
Referências

Onde está a sua operação

As referências do sector são notavelmente consistentes entre fontes independentes — organismos de eficiência hídrica, fabricantes de equipamento e integradores de sistemas chegam a valores compatíveis.

ConfiguraçãoConsumo
Máquina de lavar industrial, sem medidasBom desempenho, sem conservação de água17 – 22 L/kg
Com recolha e reutilização do enxaguamentoMesma máquina, água do último enxaguamento reaproveitada12 – 15 L/kg
Túnel de lavagem contínuaReferência estabelecida para lavagem em contínuo7,5 – 12 L/kg
Túnel com sistema de reciclagemMelhoria adicional de 40 a 80%, conforme o sistema1,5 – 4,5 L/kg

Antes de comparar a sua operação com esta tabela, um aviso: os 17 a 22 L/kg descrevem uma máquina bem operada sem medidas de conservação. Uma operação com cargas incompletas, ciclos mal escolhidos e equipamento antigo está tipicamente acima disso. Se medir e encontrar 25 ou 30 L/kg, o problema não é a máquina — é o processo.

03
A maior alavanca

Reaproveitar o enxaguamento

O último enxaguamento de um ciclo sai praticamente limpo. Não serve para a lavagem principal da carga seguinte, mas serve perfeitamente para o primeiro banho dessa carga — aquele cuja função é molhar e remover a sujidade solta.

Recolher essa água num depósito e reintroduzi-la no início do ciclo seguinte é a medida isolada com maior retorno numa lavandaria de máquinas convencionais. É o que faz a diferença entre a primeira e a segunda linha da tabela acima: de 17–22 para 12–15 L/kg.

Em sistemas de reciclagem mais completos, que tratam e devolvem a maior parte do efluente, as referências apontam para 70 a 80% de reutilização da água, com reduções de custos de utilidades na ordem dos 20 a 30%. São investimentos de outra ordem de grandeza e fazem sentido a partir de determinados volumes.

04
Sem investimento

As medidas que não custam nada

Antes de comprar equipamento, há ganhos que dependem só de disciplina operacional:

Nenhuma destas medidas exige investimento. Todas exigem que alguém seja responsável pelo indicador — e é aí que a maioria das operações falha.

05
Temperatura

Água fria e ozono

A temperatura não consome água diretamente, mas está ligada ao consumo: ciclos quentes exigem mais enxaguamentos para arrefecer e estabilizar o têxtil, e arrastam consigo o custo energético de aquecer.

Os sistemas de ozono exploram uma propriedade útil: o ozono dissolve-se melhor em água fria, o que permite baixar a temperatura de lavagem mantendo a ação desinfetante. Os ganhos documentados são sobretudo energéticos — laboratórios nacionais norte-americanos e programas públicos de eficiência registam reduções significativas no volume de água aquecida por ciclo.

Uma nota de honestidade: as afirmações comerciais sobre ozono variam enormemente, de 27% a 90% de poupança conforme quem as faz. Trate os números de fornecedor com o mesmo ceticismo com que trataria qualquer outro, e peça medições antes e depois na sua própria operação.

06
A conta

De onde vêm os 35%

O número do título não é retórico, mas também não é universal. Sai da aritmética das referências acima:

20 L/kg
Ponto de partida típico
13 L/kg
Com reaproveitamento
35 %
Redução resultante

Uma operação que hoje esteja nos 20 L/kg — o meio da faixa de quem não tem medidas — e que desça para 13 L/kg com reaproveitamento do enxaguamento e disciplina de carga corta exatamente 35%. Não é um cenário otimista: é o meio das duas primeiras linhas da tabela.

Para dar escala, usando a mesma premissa da nossa calculadora de ROI — um hotel de 50 quartos com 65% de ocupação processa cerca de 150 kg de roupa por dia:

CálculoValor
Roupa processada por ano150 kg/dia × 365 dias54 750 kg
A 20 L/kg1 095 m³/ano
A 13 L/kg712 m³/ano
PoupançaMultiplique pelo preço de água e saneamento que a sua unidade paga383 m³/ano
Onde este número não se aplica

Os 35% são alcançáveis por quem ainda não tem medidas de conservação. Uma lavandaria que já trabalhe com túnel de lavagem e sistema de reciclagem está provavelmente abaixo dos 5 L/kg — e não vai cortar outros 35% seja o que for que faça. Quanto mais eficiente já é a operação, mais caro custa cada ponto percentual seguinte.

07
Decisão

Fazer dentro ou perguntar a quem faz

Se a sua unidade tem lavandaria própria, o caminho está acima: medir L/kg, corrigir carga e separação, e avaliar o reaproveitamento do enxaguamento. É trabalho de gestão, não de investimento pesado.

Se externaliza, a questão muda de natureza: a água deixa de ser sua e passa a ser do fornecedor. Mas continua a valer a pena perguntar, por duas razões. A primeira é que o consumo do fornecedor entra nos indicadores de sustentabilidade que cada vez mais operadores e plataformas pedem. A segunda é que uma lavandaria que sabe responder a esta pergunta — com um número, não com adjetivos — é normalmente uma lavandaria que mede o resto também.

São três perguntas: quantos litros por quilo consomem, reaproveitam água de enxaguamento, e conseguem documentar isso. Quem não souber responder, provavelmente não mede.

08
Transparência

De onde vêm estes números

Nenhum valor deste artigo é uma medição da Arelia. São referências públicas do sector e documentos oficiais, para que possa verificar: